É comum que, com o avanço da idade, a pessoa passe a consultar vários especialistas. Cardiologista, endocrinologista, neurologista, ortopedista, psiquiatra. Cada um avalia uma parte do corpo, solicita exames e prescreve medicações. Com o tempo, a família começa a se sentir confusa. As receitas aumentam, as orientações às vezes parecem conflitantes e ninguém parece olhar o conjunto.
Essa fragmentação do cuidado é uma das maiores dificuldades no acompanhamento do idoso. O corpo não funciona em partes isoladas. Uma medicação prescrita para o coração pode impactar o equilíbrio. Um remédio para dormir pode aumentar risco de queda. Um ajuste na pressão pode interferir na cognição.
Quando não há integração entre as condutas, aumenta o risco de polifarmácia, efeitos colaterais e decisões desalinhadas com o grau de fragilidade da pessoa.
É nesse contexto que o papel do geriatra se torna fundamental. O geriatra não substitui necessariamente os outros especialistas, mas atua como coordenador do cuidado. Ele integra as informações, revisa exames, organiza prioridades e adapta o tratamento à realidade funcional do paciente.
Muitas vezes, o objetivo não é acrescentar novos medicamentos, mas simplificar. Ajustar doses, retirar duplicidades, redefinir metas de controle e alinhar expectativas com a fase de vida são decisões que reduzem riscos e melhoram qualidade de vida.
Outro aspecto importante é a definição de prioridades. Em pacientes muito frágeis, por exemplo, nem sempre é adequado manter metas rígidas de controle glicêmico ou pressórico. O foco pode precisar migrar para conforto, segurança e preservação funcional.
A família também se beneficia dessa centralização. Ter um médico que compreende o quadro global reduz insegurança e facilita a tomada de decisões. Isso é especialmente importante em situações de hospitalização, quedas, alterações cognitivas ou mudanças comportamentais.
O acompanhamento integrado permite que o tratamento seja coerente com os objetivos do paciente e da família. Em vez de múltiplas decisões isoladas, constrói-se um plano único e estruturado.
Se você sente que seu familiar está sendo acompanhado por muitos médicos, mas ninguém está organizando o todo, pode ser o momento de buscar uma avaliação geriátrica. Centralizar o cuidado não significa reduzir qualidade. Significa dar direção.
Cuidar bem do idoso é organizar o conjunto, não apenas tratar partes isoladas.
Dra. Ana Paula Real
Médica Geriatra CRM 80284 | RQE 62713
Especialista em Cognição
Rua Bernardo Guimarães, 1209, Funcionários – Belo Horizonte, MG
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