Uma dúvida muito comum entre familiares é: como o médico tem certeza de que é demência? Existe um exame que confirma? O diagnóstico não é feito com base em um único teste ou apenas em um exame de imagem. Ele exige avaliação cuidadosa e análise global da pessoa.
O diagnóstico de demência é, antes de tudo, clínico. Isso significa que ele se baseia principalmente na história contada pelo paciente e pela família, na avaliação do funcionamento diário e na aplicação de testes cognitivos padronizados. A conversa detalhada é uma das partes mais importantes da consulta. O médico investiga quando os sintomas começaram, como evoluíram e quais atividades passaram a ser difíceis.
Para que seja considerado demência, não basta haver esquecimento. A alteração cognitiva precisa interferir na autonomia. Dificuldade para administrar dinheiro, organizar medicamentos, manter compromissos ou realizar tarefas que antes eram simples são sinais importantes. A progressão dos sintomas ao longo do tempo também é um critério relevante.
Durante a avaliação, são aplicados testes que analisam memória, atenção, linguagem, orientação e capacidade de planejamento. Esses instrumentos ajudam a medir o grau de comprometimento e permitem acompanhamento evolutivo. No entanto, nenhum teste isolado define o diagnóstico. Ele sempre faz parte de uma análise mais ampla.
Outro passo essencial é investigar causas que podem provocar sintomas semelhantes. Depressão, alterações hormonais, deficiência de vitamina B12, distúrbios do sono e efeitos colaterais de medicamentos podem causar quadros que se confundem com demência. Por isso, exames laboratoriais fazem parte da investigação.
A ressonância magnética do crânio ou tomografia costumam ser solicitadas para avaliar alterações estruturais e ajudar a identificar possíveis causas, como doença vascular ou outras condições neurológicas. Há também o PET FDG, outra modalidade de exame que pode ajudar na identificação da etiologia da demência. No entanto, o exame de imagem não substitui a avaliação clínica. Muitas pessoas podem ter alterações nos exames sem apresentar sintomas, e o contrário também pode ocorrer.
Em situações específicas, podem ser indicados exames complementares mais avançados, como biomarcadores ou exames funcionais. Esses testes são reservados para casos selecionados, principalmente quando há dúvida diagnóstica ou necessidade de confirmação para terapias específicas.
É importante diferenciar envelhecimento normal de demência. Com o passar dos anos, pequenos esquecimentos podem ocorrer. Demorar um pouco mais para lembrar um nome ou precisar de mais tempo para aprender algo novo pode fazer parte do envelhecimento saudável. Na demência, porém, há prejuízo persistente, progressivo e com impacto real na funcionalidade.
Também é fundamental lembrar que nem toda demência é Alzheimer. Existem diferentes tipos, e identificar a causa ajuda a orientar o tratamento e o acompanhamento adequado.
O diagnóstico precoce permite iniciar intervenções, organizar a rotina, orientar a família e planejar o futuro com mais segurança. Receber um diagnóstico claro, mesmo quando difícil, costuma ser melhor do que viver na incerteza.
Por isso, a avaliação deve ser feita com tempo, escuta atenta e visão integral da pessoa. Uma abordagem geriátrica considera não apenas a memória, mas também aspectos físicos, emocionais, funcionais e medicamentosos, garantindo maior precisão e cuidado responsável.
Dra. Ana Paula Real
Médica Geriatra CRM 80284 | RQE 62713
Especialista em Cognição
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